quarta-feira, 29 de setembro de 2010

quarta-feira, 2 de junho de 2010

A saudade do escravo na velha diplomacia brasileira

O filósofo F. Hegel em sua Fenomenologia do Espírito analisou detalhadamente a dialética do senhor e do escravo. O senhor se torna tanto mais senhor quanto mais o escravo internaliza em si o senhor, o que aprofunda ainda mais seu estado de escravidão. A mesma dialética identificou Paulo Freire na relação oprimido-opressor em sua clássica obra Pedagogia do Oprimido. "Com humor comentou Frei Betto: "em cada cabeça de oprimido há uma placa virtual que diz: hospedaria de opressor". Quer dizer, o oprimido hospeda em si o opressor e é exatamente isso que o faz oprimido". A libertação se realiza quando o oprimido extrojeta o opressor e ai começa então uma nova história na qual não haverá mais oprimido e opressor, mas o cidadão livre.

Escrevo isso a propósito de nossa imprensa comercial, os grandes jornais do Rio, de São Paulo e de Porto Alegre, com referência à política externa do governo Lula no seu afã de mediar junto com o governo turco um acordo pacífico com o Irã a respeito do enriquecimento de urânio para fins não militares. Ler as opiniões emitidas por estes jornais, seja em editoriais seja por seus articulistas, alguns deles, embaixadores da velha guarda, reféns do tempo da guerra-fria, na lógica de amigo-inimigo é simplesmente estarrecedor.

O Globo fala em "suicídio diplomático" (24/05) para referir apenas um título até suave. Bem que poderiam colocar como sub-cabeçalho de seus jornais: "Sucursal do Império", pois sua voz é mais eco da voz do senhor imperial do que a voz do jornalismo que objetivamente informa e honestamente opina. Outros, como o Jornal do Brasil, têm seguido uma linha de objetividade, fornecendo os dados principais para os leitores fazerem sua apreciação.

As opiniões revelam pessoas que têm saudades deste senhor imperial internalizado, de quem se comportam como súcubos. Não admitem que o Brasil de Lula ganhe relevância mundial e se transforme num ator político importante como o repetiu, há pouco, no Brasil, o Secretário Geral da ONU, Ban-Ki-moon. Querem vê-lo no lugar que lhe cabe: na periferia colonial, alinhado ao patrão imperial, qual cão amestrado e vira-lata. Posso imaginar o quanto os donos desses jornais sofrem ao ter que aceitar que o Brasil nunca poderá ser o que gostariam que fosse: um Estado-agregado como são Hawaí e Porto-Rico. Como não há jeito, a maneira então de atender à voz do senhor internalizado, é difamar, ridicularizar e desqualificar, de forma até antipatriótica, a iniciativa e a pessoa do Presidente. Este notoriamente é reconhecido, mundo afora, como excepcional interlocutor, com grande habilidade nas negociações e dotado de singular força de convencimento.

O povo brasileiro abomina a subserviência aos poderosos e aprecia, às vezes ingenuamente, os estrangeiros e os outros povos. Sente-se orgulhoso de seu Presidente. Ele é um deles, um sobrevivente da grande tribulação, que as elites, tidas por Darcy Ribeiro como das mais reacionárias do mundo, nunca o aceitaram porque pensam que seu lugar não é na Presidência mas na fábrica produzindo para elas. Mas a história quis que fosse Presidente e que comparecesse como um personagem de grande carisma, unindo em sua pessoa ternura para com os humildes e vigor com o qual sustenta suas posições.

O que estamos assistindo é a contraposição de dois paradigmas de fazer diplomacia: uma velha, imperial, intimidatória, do uso da truculência ideológica, econômica e eventualmente militar, diplomacia inimiga da paz e da vida, que nunca trouxe resultados duradouros. E outra, do século XXI, que se dá conta de que vivemos numa fase nova da história, a história coletiva dos povos que se obrigam a conviver harmoniosamente num pequeno planeta, escasso de recursos e semi-devastado. Para esta nova situação impõe-se a diplomacia do diálogo incansável, da negociação do ganha-ganha, dos acertos para além das diferenças. Lula entendeu esta fase planetária. Fez-se protagonista do novo, daquela estratégia que pode efetivamente evitar a maior praga que jamais existiu: a guerra que só destrói e mata. Agora, ou seguiremos esta nova diplomacia, ou nos entredevoraremos. Ou Hillary ou Lula.

A nossa imprensa comercial é obtusa face a essa nova emergência da história. Por isso abomina a diplomacia de Lula.


por Leonardo Boff, em Carta Maior

terça-feira, 18 de maio de 2010

Congresso Municipal da UJS 2010

Chegamos a mais um congresso. Nesse último período a UJS foi a voz da juventude iguaçuense na defesa de seus direitos e interesses da maioria do povo. Pela primeira vez apoiou um candidato a vereador dentre seus quadros militantes, conseguindo divulgar suas idéias e se tornar conhecida por toda a cidade. Foi para a rua e ajudou a organizar as mobilizações por uma Palestina livre e em solidariedade ao povo palestino quando da cruel investida sionista de Israel contra a população da Faixa de Gaza.

Contribuiu decisivamente enviando reforços pelo estado para a construção da campanha vitoriosa ao 42 Congresso da UPE (União Paranaense dos Estudantes), sediado em Foz. Teve papel de destaque nas discussões sobre o Transporte Coletivo, assumindo uma cadeira na Comissão de Estudos para a melhoria do Transporte Coletivo de Foz do Iguaçu e depois garantiu a cadeira da UPE no Conselho Municipal de Transito e Transporte. O Transporte vem sendo o principal foco de nosso trabalho, como na campanha “O Busão é Nosso!”, realizando trabalho de rua ouvindo a população através de entrevistas filmadas e mais recentemente na campanha "Com o Único, desse jeito, não dá!", em que conseguimos a flexibilização do acesso ao meio-passe.

Mas foco não é sinônimo de exclusividade. Nos posicionamos contrários ao projeto de lei que visava fechar os bares e similares após a meia-noite, deixando apenas os do circuito turístico abertos, medida segregacionista e excludente ao passo que fecham-se os pequenos dos bairros enquanto os grandes e freqüentados pela elite continuam abertos. Contribuimos de maneira efetiva com as discussões e encaminhamentos da Conferência Municipal de Educação. Mais recentemente, em sintonia com os movimentos sociais de todo o estado, trouxemos para Foz do Iguaçu o movimento dos Caça-Fantasmas, realizando um grande ato em frente à Câmara Municipal dos Vereadores, cobrando a apuração de todas as denúncias envolvendo o uso de servidores fantasmas na Assembléia Legislativa do Paraná.

E é para continuar construindo isso e muito mais que te chamamos para a luta. Participe do Congresso Municipal da UJS.

CONGRESSO MUNICIPAL DA UJS (PROGRAMAÇÃO) - CAIC do Morumbi:

22 de maio (sábado)

16h00 - Credenciamento
17h00 - Abertura
18h00 - Grupos de Discussão
20h30 - Jantar
21h30 - Atividades Culturais

23 de maio (domingo)

09h30 - Café da manhã
11h00 - Aprovação do Estatuto
12h30 - Almoço
14h00 - Plenária Final: - Aprovação de propostas, - Eleição da Direção
17h00 - Encerramento


GRUPOS DE DISCUSSÃO:

- M.E Secundarista (Kaka e Vaca)
- M.E Universitario (Andressa)
- Cultura (Moa, Dengue e Santiago)
- Comunicação (Daisy)

quarta-feira, 14 de abril de 2010

UNE e Movimentos Sociais protestam em Curitiba - PR

Camaradas,

Peço que confiram essa matéria que saiu agora pouco no RPC 1ª edição.

video

Estudantes derrubam portão e invadem Assembleia no PR


A manifestação cobra rigor nas investigações das denúncias de crimes econômicos contra a Assembleia Legislativa.

Publicado em 14 de Abril de 2010, às 11h38min Patrícia Sonsin Fonte: Bonde News

Cerca de 350 manifestantes derrubaram por volta das 10h30 de hoje (14) parte do portão externo da Assembleia Legislativa do Paraná. Todas as galerias da Alep, que fica na Praça Santos Andrade, foram tomadas.
Os manifestantes são membros da União Paranaense dos Estudantes (UPE), da União Nacional dos Estudantes (UNE) e outras agremiações, além do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST).
A manifestação cobra rigor nas investigações das denúncias de crimes econômicos contra a Assembleia Legislativa e pedem a saída imediata de Nelson Justus (DEM), presidente da Casa. Ontem (13) constatou-se que assessor contratou pelo menos 12 parentes.

Saudações socialistas!

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Traga mais um título para o Brasil!

Amanhã será lançada a campanha "Traga mais um título para o Brasil" no salão principal da Fundação Cultural às 10h30.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Com o Único, desse jeito, não dá!

Há cerca de dois anos, após a realização de reuniões da UJS, pautamos pela primeira vez publicamente nosso descontentamento com o transporte coletivo em uma Audiência Pública chamada com o propósito de discutir o tema. Naquela ocasião denunciamos nosso sistema de transporte público como o pior e mais caro do Paraná.

De lá para cá viemos sistematicamente debatendo e estudando o tema, integrando a Comissão de Estudos sobre o Transporte Coletivo, que nos abriu a oportunidade de conquistar uma cadeira para a UPE (União Paranaense dos Estudantes) no Conselho Municipal de Trânsito e Transporte, criado no final do ano passado. Será este o Conselho encarregado de discutir e aprovar o edital de licitação para a concessão às empresas que explorarão esse segmento.

Entendendo a responsabilidade que temos em representar a juventude iguaçuense é que nos esforçamos ao máximo para estudar o tema com a profundidade que ele merece. Mais importante ainda, ouvir a juventude em seus anseios e angústias. Está feito o convite, vamos discutir e lutar para que nossas reinvindicações sejam de fato implementadas!

Bilhetagem eletrônica, problema ou solução?

Nem um nem outro. Na verdade a bilhetagem eletrônica é apenas uma ferramenta tecnológica que pode tanto ser usada para otimizar os serviços bem como para restringir o acesso a direitos.
Pode, por exemplo, permitir um maior controle do número real de passageiros por parte do Foztrans podendo ser publicado diretamente online.

E como a bilhetagem eletrônica tem sido implementada por aqui?

A operacionalização do sistema eletrônico que está substituindo o uso dos vales de papel será efetuada pela empresa Único.

No entanto, a bilhetagem que podia ser um sucesso em termos de otimizar a prestação de serviços vem apresentando uma série de problemas como a limitação de acesso ao direito do meio-passe por estudantes.

A empresa vem proibindo a utilização de tal direito nos horários que a administração do sistema julga não serem adequados para cada estudante e proibindo, inclusive, o acesso a outras linhas que não sejam as definidas pela empresa.

Tal atitude fere o direito de ir e vir, ataca o direito ao meio-passe, impossibilita o usufruto do direito para fazer estágios e estudar em bibliotecas no contra-turno. A limitação das linhas, prejudica os deslocamentos para pesquisas e limita a possibilidade de horários e mobilidade.

Inclusive, os horários de uso do direito são estabelecidos pelo Único e não pela instituição de ensino. Ficando o estudante obrigado a apresentar declaração (autenticada em cartório), nos casos em que o horário das aulas não é compatível com a tabela da empresa. Tal atitude prejudica, os estudantes, obrigados a pagaram a passagem integral para se deslocar às aulas especiais, pesquisas ou estágios.

Sendo um serviço, o consumidor não tem necessidade de provar que fala a verdade, uma vez que, para fazer o cadastro na empresa, já levou as declarações solicitadas e comprovou ser estudante, tendo, portanto, direito ao meio-passe.

O Único tem apresentado demora no atendimento e encaminhamento de documentação, ficando a espera sempre superior aos 30 minutos. Mesmo sabendo que a lei não vale para ela, a empresa Único, efetua a troca periódica das senhas, intimidando as reclamações de demora no serviço.

E o quê tem sido feito?

Representantes do Diretório Central dos Estudantes da Unioeste, Uniamérica e Unifoz, do Grêmio Estudantil do Colégio Estadual Bartolomeu Mitre e da União da Juventude Socialista protocolaram na semana passada um requerimento junto ao Ministério Público para que sejam averiguadas essas irregularidades. Foram mobilizadas demais escolas e faculdades e foi encaminhada uma reunião no Terminal para formar um Comitê Estudantil que ficará de olho sobre qualquer alteração em relação ao nosso transporte coletivo.

Estudante é estudante todos os dias da semana e todas as horas do dia

É isso mesmo. Os estudantes não são estudantes apenas no período em que estão indo estudar ou estudando, mas sim durante todos os dias enquanto estudarem.

Devem ter o direito de se deslocarem nos finais de semana para fazer um trabalho na casa dos colegas. Devem ainda terem acesso à cultura, como ir a um cinema no Domingo. Não é a toa que tem o direito à meia-entrada.


REUNIÃO HOJE (25/03) ÀS 18h NO TERMINAL

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Provocações

A primeira provocação ele agüentou calado. Na verdade, gritou e esperneou. Mas todos os bebês fazem assim, mesmo os que nascem em maternidade, ajudados por especialistas. E não como ele, numa toca, aparado só pelo chão. A segunda provocação foi a alimentação que lhe deram, depois do leite da mãe. Uma porcaria. Não reclamou porque não era disso. Outra provocação foi perder a metade dos seus dez irmãos, por doença e falta de medicamento. Não gostou nada daquilo. Mas ficou firme. Era de boa paz. Foram provocando por toda a vida.

Não pôde ir à escola porque tinha que ajudar na roça. Tudo bem, ele gostava de roça. Mas aí lhe tiraram a roça. Na cidade, para onde teve que ir com a família, era provocação de tudo que era lado. Resistiu a todas. Morar em barraco. Depois perder o barraco, que estava onde não podia estar. Ir para um barraco pior. Ficou firme, firme. Queria um emprego, só conseguiu um subemprego. Queria casar, conseguiu uma submulher. Tiveram subfilhos. Subnutridos. Os que morriam eram substituídos. Para conseguir ajuda, só entrando em fila. E a ajuda não ajudava.

Estavam provocando. Gostava da roça. O negócio dele era a roça. Queria voltar pra roça. Ouvira falar de uma tal de reforma agrária. Não sabia bem o que era. Parece que a idéia era lhe dar uma terrinha. Se não era outra provocação, era uma boa. Terra era o que não faltava. Passou anos ouvindo falar em reforma agrária. Em voltar à terra. Em ter a terra que nunca tivera. Amanhã. No próximo ano. No próximo governo. Concluiu que era provocação. Mais uma.

Finalmente ouviu dizer que desta vez a reforma agrária vinha mesmo. Pra valer. Garantida. Se animou. Se mobilizou. Pegou a enxada e foi brigar pelo que pudesse conseguir. Estava disposto a aceitar qualquer coisa. Só não estava mais disposto a aceitar provocação. Aí ouviu que a reforma agrária não era bem assim. Talvez amanhã. Talvez no próximo ano...

Então protestou. Na décima milésima provocação, reagiu.E ouviu, espantado, as pessoas dizerem, horrorizadas com ele:

Violência não!


por Luis Fernando Verissimo, do blog Fanzine Cartel do Rap

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Polêmicas mal explicadas no PNDH

Muito tem se falado sobre o "polêmico" Programa Nacional de Direitos Humanos. Recebi o email de um velho companheiro de lutas estudantis no qual achei esclarecedor e por isso tomo a liberdade de publicá-lo a seguir:

A quem interessa desmoralizar o Programa Nacional de Direitos Humanos

Por João Paulo Mehl


A terceira versão do Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH – 3), lançada pelo presidente Lula em dezembro do ano passado, abarca diversas questões e balançou as mesas de debate nacional. Junto à polêmica gerada, também vieram as evidências da desinformação (por vezes proposital) sobre o conteúdo; ainda assim, o projeto acabou iluminando a discussão ideológica que deve ser o centro da política nacional, colocando em confronto aqueles que acreditam que é preciso avançar no processo democrático, corrigindo injustiças históricas, e aqueles que compõem ou representam a velha e conservadora elite nacional avessa a mudanças.

É preciso pontuar de antemão que o PNDH - 3 não é fruto de interesses de partido A ou B, mas o resultado de mais de dois anos de debates promovidos por audiências públicas, conferências regionais, estaduais e nacional de Direitos Humanos. Estas mobilizaram cerca de 14 mil pessoas, representantes dos diversos setores da sociedade brasileira - tanto no âmbito civil quanto no governamental - em todos os estados da federação. O projeto é o produto de uma revisão do programa inicial sugerido durante o primeiro mandato de FHC, em 1996, em que pontos foram reavaliados e novos incluídos.

O plano prevê a criação de 27 leis e toca em diversas questões, algumas mais polêmicas. No conteúdo, propõe-se a descriminalização do aborto, a proibição da ostentação de símbolos religiosos em locais públicos, direito ao casamento civil de pessoas do mesmo sexo e a adoção de crianças por estes casais e outras propostas na tentativa de reformar pontos conservadores da constituição brasileira. Também abrange direitos dos povos indígenas e quilombolas e sugere o acompanhamento editorial dos veículos de comunicação.

A sociedade propôs e o Governo Lula ousou assimilar propostas amplamente debatidas. Mas sempre que surgem propostas para mudar o status quo, logo aparece a turma do "deixa como está". Ignorando que o plano é resultado de amplas discussões e segue critérios democráticos, estes setores desinteressados em debater com a população passaram a demonstrar, através da mídia, sua profunda insatisfação com as reformas que o Programa objetiva promover. São grupos isolados que, por interesses específicos, têm feito forte pressão para retirar propostas do plano ou modificá-las de acordo com suas intenções.

Entendemos que a Lei deve ser uniforme e proteger igualmente os seres humanos, em meio à diversidade do nosso país. Sendo branco, negro, índio, LGBT, torcedor do Bahia ou vegetariano, todos são iguais perante a Lei e têm o mesmo direito de se alimentar, receber assistência médica ou ir ao teatro; então, por que é proibido o casamento entre pessoas do mesmo sexo? Qual é a justificativa racional impede um casal gay ou de lésbicas de adotar um filho e construir uma família? Como um conjunto de leis que deve defender e organizar a sociedade exclui, por razões preconceituosas, direitos de grupos historicamente vítimas da discriminação? É preciso combater o preconceito, e esse combate começa por avançar em pontos que nunca foram debatidos em nosso país. Querer conservar esse sistema injusto e desigual é ferir gravemente os direitos humanos.

É preciso seguir firme na proposta inicial do PNDH - 3 e resistir às pressões das elites que, para manter seus privilégios, não têm interesse na justiça social ou nos direitos humanos. No caso da ocupação de terras, a proposta é que só terão poder as liminares de reintegração de posse após a realização de audiência pública para analisar o caso e a função social da propriedade reivindicada. Antes, a reintegração de posse era imediata e geralmente violenta, com o PNDH - 3, haveria critérios socialmente mais justos na avaliação dos casos, como o papel que a terra cumpre na sociedade brasileira: o que produz, para quem produz, por que produz. A intenção é promover uma mediação pacífica nos conflitos agrários e urbanos. Mas setores conservadores do agronegócio, representados no governo pelo ministro Reinhold Stephanes (o mesmo que é contra a óbvia e necessária revisão dos índices de produtividade) e pela bancada ruralista têm demonstrado sua insatisfação com a reforma no plano ao pressionar o governo para retirar essa proposta.

O PNDH - 3 também estabelece a proibição de ostentar símbolos religiosos em locais públicos, para garantir que o Brasil não seja um Estado laico só na teoria. Por respeito à pluralidade de visões e religiões, a proposta de proibir a exposição de artigos que remetam a uma ou outra doutrina serve para não ferir a liberdade de crença. Locais públicos, como o próprio nome sugere, são ambientes que pertencem ao coletivo dos cidadãos e, portanto, certos princípios devem ser observados. Do mesmo jeito que um católico talvez possa não se sentir à vontade com símbolos de outras crenças, um ateu também pode se incomodar com a imagem de um santo. Por respeito a ambos e a todos os outros grupos religiosos, o espaço público deve ser preservado de ostentações particulares de cada doutrina.

Entretanto, dentre as questões mais polêmicas, destaca-se a proposta de criação da Comissão pelo Direito à Verdade. Esse grupo terá o papel de examinar atos de violação dos direitos humanos cometidos durante a ditadura militar. Após pressão do Exército, a solução encontrada foi retirar do plano referências à repressão, mas substancialmente a proposta de analisar e punir os crimes políticos permanece. Preocupa-nos, no entanto, o impacto político deste recuo. A importância desse ponto é finalmente desvendar essa página obscura da história do Brasil, em que centenas de algozes ainda não foram responsabilizados pelas torturas praticadas, e enfim superar a violência institucional. É papel da sociedade pressionar para sejam esclarecidas as barbáries cometidos pelo regime militar.

Não podemos deixar de citar o que a grande mídia chama de "censura" e nós chamamos de controle social de um espaço que é público e não privado, como querem os donos do poder. TV e rádio são concessões públicas, isto é, pertencem a você, a mim e a todo povo brasileiro e por isto devem prestar um serviço público que atenda aos interesses da população, e que segundo a constituição brasileira deve seguir critérios e objetivos que muitas vezes são infringidos. O PNDH - 3 propõe que empresas que veicularem programas que atentem contra os direitos humanos sejam punidas e que seja criado um ranking das coorporações comprometidas com os DH e daquelas que cometem infrações. Oras, quem tem medo de Direitos Humanos?

Existem outros pontos que mereciam uma abordagem mais atenta, mas é importante que se aborde alguns dos mais polêmicos para contribuir com o entendimento público. Refletindo um pouco sobre a conjuntura pós apresentação do plano, vemos que ele explicita o governo de coalisão em que vivemos e deixa claro até onde o governo pode avançar neste modo de governar, limitado pela tal governabilidade. Dos 37 atuais ministros, 31 concordaram e assinaram o plano. Dentro da base governista no congresso a situação é pior; boa parte dos deputados se escondem com medo do impacto eleitoral e outros, ligados aos ruralistas e a setores fundamentalistas, são os primeiros a apedrejar o programa. E o Presidente Lula que assinou o decreto? E a alta direção do Governo? Será que é hora de escutar os marqueteiros de plantão sempre prontos a ponderar para não correrem riscos eleitorais, ou encarar velhas demandas e propor ações efetivas de valorização de direitos?

O Governo não pode ceder mais uma vez e nem abrir mão de convicções históricas da sociedade. O programa é um avanço, e revê-lo, retirando ou amenizando pontos polêmicos, representa uma vitória dos setores mais conservadores da sociedade. É preciso enfrentar a rigidez das estruturas construídas para que se ergam outras, mais justas e democráticas, e que respeitem os direitos humanos. Esperamos que saia do papel as propostas do pacote de medidas que vêm sendo alvo de protesto de grupos isolados que optaram por não fazer o debate dentro das instâncias pré estabelecidas.

Entendo que é de fundamental importância que os movimentos sociais e partidos de esquerda se unifiquem na luta para implementar integralmente o Programa Nacional de Direitos Humanos e pressionem as instituições do governo a fim de que ele seja colocado em prática. Embora ainda haja muita caminhada no que se refere à justiça social, não se pode negar que o programa é um avanço em questão de direitos humanos e poderá mexer em velhas estruturas erguidas para manter a desigualdade em nosso país, basta vontade política!


Vamos às ruas e à luta em defesa do 3º Plano Nacional de Direitos Humanos!


João Paulo Mehl é presidente eleito da Zonal Matriz do Partido dos Trabalhadores de Curitiba, também é associado do Coletivo Soylocoporti e do Intervozes - Coletivo Brasil de Comunicação Social.
Este texto não representa necessáriamente a opinião das organizações citadas, mas a opinião pessoal do autor.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Espelhos

Quando comecei a militar no Partido Comunista as pessoas perguntam como, porquê eu estava fazendo política. Hoje escuto muitas vezes me perguntarem porque não desisto. Acredito ser bastante evidente a resposta. Não desisto porque nosso país é maravilhoso, nosso povo pode viver com muito mais dignidade, porque as injustiças seguem me indignando e eu acho que posso ajudar a melhorar, que nós podemos, na luta, ajudar a melhorar.
Mas volta e meia, principalmente quando converso com bons colegas que pensam em deixar o parlamento nessas eleições, reflito sobre suas razões. E existem várias que me sensibilizam. Mas uma em especial: uma sensação de que muitas pessoas agem como se todos estivessem errados, como se ninguém prestasse, como se soubessem tudo e não fosse necessário nem sequer perguntar.
Acho que já comentei aqui de um fato que ocorreu comigo há quase três anos. Eu havia sido eleita deputada há alguns meses. A Câmara estava votando aumento de salário. Minha avó estava hospitalizada. Fiquei em Brasília todos os dias trabalhando. Ela morreu. E foi, até hoje, a pessoa mais próxima e querida minha que se foi. De um lado havia um jornalista que me ligou 17 vezes (mais ou menos isso) porque achava que eu não queria falar (eu estava no cemitério). De outro, estava eu no carro indo (sei lá) para o hospital juntar as coisas delas e ouvi um cidadão gritando: em Porto Alegre, hein? Matando trabalho... Nunca mais voto em ti.
Evidente que entendo as razões de ambos. Muitos não falam com jornalistas. Muitos matam trabalho. Mas também é preciso ver o outro lado. Nós não somos espelhos que as coisas refletem e voltam. Elas entram. Nos sensibilizam. Marcam. Como em todas as pessoas.
O problema é com os políticos ainda há explicação. Evidente que não justifica, mas explica. As pessoas tem seus reais motivos para desconfiar. Mas eu percebo isso em muitas outras relações da sociedade. Parece que nosso individualismo é tão grande que esquecemos de nos colocar no lugar das pessoas. Será que a moça do caixa do supermercado que te atendeu mal não está com algum problema? Será que o cobrador do ônibus não tem contas atrasadas ou um filho envolvido com drogas? Será que não seria tudo melhor se APENAS nos colocássemos no lugar do outro? Em minha opinião sim.
Nesse período do ano em que passou (janeiro e fevereiro) enfrentei um grande problema. E vi como as pessoas que se colocaram em meu lugar puderam me ajudar. Aprendi. E tento fazer isso sempre. Pergunto mais, problematizo mais, olho por vários ângulos. A dor ensina a gemer, diz o ditado.
Escrevo isso tudo pois na última semana precisava de ajuda para arrumar uma coisa na minha casa. O senhor veio e fez tudo errado. Confundiu tudo, demorou um dia a mais. No outro dia ele veio acompanhado do filho e percebi que ele era analfabeto. Precisou de ajuda para ler. Percebi então que eu estava irritada com algo que, se eu apenas tivesse perguntado: precisa de ajuda? não teria acontecido.
Vi também que, por mais que tenha aprendido, ainda tenho muito a caminhar. Ainda bem.

por Manuela D' Àvilla
no blog Há uma menina...